O eco do afeto: quando as palavras da infância curam o presente!
*Por Sidenei Defendi
Na sexta-feira, 4 de setembro, quando sentei para escrever sobre o “Dia dos Irmãos” – crônica publicada no blog Pedreira AGora e no jornal online Bote a Boca - não imaginava que estava, na verdade, manuseando uma chave antiga. Uma daquelas chaves pesadas, esquecidas no fundo da gaveta do tempo, capaz de abrir portas que a rotina teima em trancar.
Escrevi sobre o meu relacionamento com as minhas irmãs, sobre os labirintos da nossa infância. Mas o que voltou para mim, nos dias seguintes, foi um imenso eco coletivo, após publicar a crônica.
Na verdade, fiquei muito feliz e emocionado com o carinho do retorno. Sinceramente, não planejei, em nenhum instante, as palavras; elas simplesmente foram surgindo enquanto eu lembrava da minha infância com as minhas irmãs. Que bom saber que a minha história também é a história de muitos de vocês. O texto nasceu de insights espontâneos e de pura saudade daquele tempo bom. Foi só o coração ditando as lembranças e os termos da nossa juventude que apareceram sozinhos. É muito bom saber que vivemos e sentimos as mesmas coisas. Obrigado por compartilharem esses sentimentos comigo! Que as lembranças nos sirvam sempre de colo e conforto.
Vieram mensagens carregadas de lágrimas, confissões de peitos apertados pela emoção e, acima de tudo, um espanto bonito. Amigos que já cruzaram a fronteira dos sessenta anos me disseram que o texto foi "forte", que havia sido feito com o coração. Que fizeram lembrar dos irmãos que voltaram à Pátria Celestial. O que me tocou demais, mesmo porque também havia revelado a minha história de uma das minhas irmãs, que já habita outra dimensão e foi embora cedo demais."
Mas o que mais me tocou foi perceber que o choro não veio pela tristeza, e sim pelo reencontro. Eles choraram porque ouviram, naquelas linhas, as palavras exatas que pronunciavam quando a vida era um quintal grande e o futuro, uma promessa distante.
Resgatar o vocabulário da nossa infância e adolescência é como devolver o sotaque à nossa alma. Em um mundo que parece sofrer de uma crônica falta de afeto — onde os abraços são rápidos e as conversas, muitas vezes, mediadas por telas frias —, lembrar de como nos chamávamos, das piadas internas e do jeito puro como nos amávamos é um ato de resistência.
O abalo mais forte, contudo, deu-se nas mensagens expressadas por aqueles que — assim como eu — hoje guardam a saudade dos irmãos que já partiram. Para nós, cujos companheiros de infância agora habitam o Oriente Eterno, cada linha lida foi um reencontro espiritual. Ouvir novamente o dialeto do nosso tempo de criança foi como escutar, por um breve instante, o eco da voz de quem já não está aqui, transformando a ausência física em uma presença viva, tecida pela memória e pelo amor que a morte não apaga.
Esses amigos, que hoje olham o mundo com a sabedoria das décadas vividas, encontraram na história o espelho das suas próprias jornadas. Percebi, então, que a nossa história nunca é só nossa. Quando ousamos falar com o coração, tocamos em uma tomada invisível que acende a memória do outro.
Não há distância nem tempo que apague o calor daquele afeto antigo. E se hoje sentimos falta dele, que a escrita seja o nosso ponto de encontro. Afinal, lembrar junto é uma forma calma e tranquila de continuar demonstrando respeito aos que já partiram e amor aos que ainda, felizmente, estão conosco.



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