*POR SIDENEI DEFENDI – Conteúdo Autoral –
Relembrando uma das vozes que atravessaram as montanhas e encontraram abrigo no coração de cada morador. A Rádio Cidade de Pedreira foi mais do que informação; foi o fio invisível de quem ajudou a dar brilho a porcelana e que fez pulsar o comércio e a vida desta terra acolhedora. Foi a trilha sonora de uma terra que respira trabalho e tradição.
Em “Os Embaixadores da Comunicação Pedreirense”, que vai aparecer aos poucos – não será sequencial – a crônica dedicada a homenagear os operários do microfone que, com ética e paixão, narraram pela RCP a história da nossa gente, mantendo viva a alma da nossa Capital Nacional da Porcelana. Hoje, a REVERÊNCIA é para o “Rei das Cartas”.
Naquele, 28 de outubro de 1981, quando a Rádio Cidade de Pedreira abriu a sua sintonia em definitivo, através dos 1.560 KHz, o ar do interior ganhou uma nova textura. Eram apenas 250 watts, uma potência modesta no papel, mas tocava fundo no gigante coração de quem vivia entre as colinas, as planícies, as serras e os pontos de relevos acidentados, da Grande Campinas, Baixa Mogiana e Circuito das Águas, além de atingir outras localidades da Região Bragantina e o Sul de Minas.
Sua frequência conseguia atravessar montanhas, vales, rios, córregos, para ser sintonizada nos rádios de pilhas nos quintais, nos rádios elétricos ligados nas cozinhas, salas, quartos ou os que ficavam nas varandas. Estavam também colados no corpo dos apanhadores de café, cortadores de cana, entre muitos outros trabalhadores. Mas a RCP ganhava preferência também nos veículos, estabelecimentos comerciais, portarias dos edifícios etc. Felizmente, naquela época, o tempo ainda não corria na velocidade da fibra ótica; ele caminhava no ritmo das estradinhas de terra e do chiado charmoso do AM. O epicentro dessa magia se concentrava na Praça Coronel João Pedro, em um prédio que já fora hotel e guardava o eco de muitos sonhos.
A programação era um mosaico humano: vozes para todas as idades, ritmos para todos os humores. E, nas manhãs, depois de um bom período ocupado pelo Walter Carbonatto, que preferiu cuidar somente do outro programa que tinha, à tarde, Parada Sertaneja, que tinha como atração o “Bobrinha”. Mas para comandar a atração matutina surgiu ele, Compadre Juca, conduzindo o sertanejo com a naturalidade de quem não fala ao microfone, mas ao pé do ouvido. Não era apenas um programa. Era companhia, sem pressa O ouvinte não “mandava mensagem”, escrevia cartas. Folhas de papel cheias de sentimento, ou, quando muito, enfrentava a linha ocupada de um telefone.
A grande quantidade de cartas revela o poder de mobilização que o Compadre Juca detinha. Estilo próprio de se comunicar: não tinha papas na língua e sempre falava o que pensava, sem rodeios ou filtros. O rádio era o principal elo social da época, unindo a região em torno de uma figura carismática.
Antes da internet, a participação do público dependia de meios físicos (cartas e telefone), criando um volume de dados que superava a capacidade de processamento humano do apresentador. O rádio, como um todo, funcionava como uma rede social comunitária, onde o anúncio de um aniversário ou um pedido de música validava a existência do ouvinte perante a sociedade. O audiente se sentia honrado em ser atendido. Era o afeto que o comunicador dava aos que estavam do outro lado do aparelho. Para a Rádio, a carta não era apenas papel, mas a prova métrica de sucesso e a base do seu faturamento e relevância. Mostrava a fidelização de quem a sintonizava.
E as cartas? Ah, elas chegavam aos montes. Sim, uma quantidade enorme. Para todos os programas, de todos os cantos. Mas havia um destino preferido: o nicho do armário do Compadre Juca. Dezenas por dia. Na antessala do estúdio, na Praça Cel. João Pedro, onde dividiam espaços a turma do jornalismo e da produção, havia um armário grande. Um pedaço dele pertencia ao Compadre Juca. E já não dava conta. As cartas se amontoavam como se também quisessem ser ouvidas. Pilhas e pilhas. Histórias esperando voz.
Até que, num desses dias em que a realidade bate à porta sem pedir licença, Walter Carbonato, um dos donos da emissora, chamou o Compadre à responsabilidade: era preciso ler, era preciso responder, era preciso honrar aquela confiança depositada em envelopes simples. Porque cada carta era mais que papel, era alguém do outro lado, com esperança, que tirava um tempo do dia para dizer “estou te ouvindo”.
E ele fez. Demorou meses, é verdade. Mas o homem virou definitivamente o “Rei das Cartas”. Aos poucos, foi dando vazão àquele oceano de sentimentos: pedidos de música, aniversários lembrados, recados atravessando distâncias curtas e saudades longas, enquanto o café era coado em cima do fogão a lenha, aromatizando todo o espaço. Eram vozes que não tinham microfone, mas encontravam nele o eco.
As cartas, porém, não cessavam; chegavam como uma maré insistente que transbordava das prateleiras, trazendo em cada envelope o peso de um desejo. Diante daquela avalanche de papel e esperança, ele precisou multiplicar-se, transformando o tempo em um elástico invisível para que nenhum pedido se perdesse no silêncio e cada remetente encontrasse, no som da sua voz, o porto seguro de uma resposta.
Vinham das fazendas, dos sítios, das chácaras, dos moradores da área urbana. Procediam de gente que talvez nunca pisaria num estúdio, mas que fazia o rádio acontecer. E, em cada linha lida, havia um empurrão imperceptível, aquele que todo comunicador precisa para continuar.
Não demorou, e a noite também pediu sua voz. Nasceu o Luar do Sertão, programa que embalava corações quando o dia já tinha ido embora, mas a saudade ainda insistia em ficar acordada.
Com uma voz que abraçava a cidade, Compadre Juca moldou o programa com um jeito único, tecendo histórias que prendiam ouvintes a cada compasso da música a ser executada. Durante o teste que fazia, sendo acompanhado por Sidenei Defendi, a criatividade fluía livre, desenhando cenários sonoros onde o cotidiano de Pedreira ganhava uma magia singular e contagiante.
Num instante de pura inspiração, soltou o bordão: “Não perca o horário do seu ônibus!”. Porém, a realidade daquela Pedreira era outra, ainda sem o compasso do Ônibus Circular, retrucou quem o assistia no estúdio. Os trabalhadores se moviam com suas bicicletas, cruzando a Cidade para chegar à empresa em que exerciam as atividades. A frase virou uma pérola que ficou guardada na galeria da memória. O bordão recuou, mas o ritmo de Compadre Juca permaneceu, marcando o tempo lírico de um programa que se tornou eterno no coração de quem ouvia.
O tempo, como sempre, seguiu seu curso, às vezes generoso, às vezes implacável. A emissora resistiu até 2 de maio de 2000. E há algo de quase poético ou cruel no desfecho: o sinal foi desligado minutos antes das 15 horas, justamente quando entraria no ar o Porteira Aberta, programa que Compadre Juca comandava nas tardes da Regional AM, que mudara de nome e de dono. Como se alguém tivesse fechado a cancela antes do último berrante.
Mas há coisas que não se desligam. As cartas, por exemplo. Elas ainda existem não mais empilhadas num armário, mas guardadas na memória de quem viveu aquele tempo em que o rádio não era apenas ouvido… era sentido. E talvez seja isso que mais incomoda hoje: em meio a tanta tecnologia, nunca foi tão fácil falar e tão raro, de fato, ser ouvido.
Com uma trajetória marcada pelo carinho do público, esse apresentador sertanejo deixou uma lacuna de saudade no rádio da Região. Após o fim das atividades da antiga Rádio Cidade, ele levou seu talento para uma das “Rádios Livres”, que freqüentaram o dial do FM, em Pedreira, e depois colaborou com a Boa Nova FM, a emissora comunitária da “Flor de Porcelana”, sempre mantendo sua essência e conexão com os ouvintes. Por esta grandiosa comunicação, Vilson Aparecido Balestri, o conhecidíssimo Compadre Juca, através do Decreto Legislativo nº 1, de 6 de maio de 2002, foi agraciado pela Câmara Municipal de Pedreira, com o Título de Cidadão Pedreirense.
Afinal, para quem trabalha em rádio, existe uma relação muito curiosa com o primeiro horário de cada programação. Durante anos foi o Compadre Juca que abriu a Rádio e a roteirização do dia. Foi a voz que dava o primeiro “bom dia”, para o trabalhador que acabava de se levantar ou para aqueles que acordam bem cedinho, por natureza.
Para fazer o que ele fazia, naquele horário inicial da programação e com o estilo tão próprio, era preciso mais do que talento. Tinha de ser verdadeiro. Histórias que não se ensaiam, que não se inventam, que simplesmente nascem com a pessoa. E Compadre Juca carregava isso como quem respira: sem esforço, sem máscara, sem artifício.
Na profissão e na vida, sua autenticidade não era adereço e sim, essência. Não havia nada de forçado em sua presença, nada que soasse treinado. Era uma voz que vinha de dentro, firme e ao mesmo tempo, trazendo consigo não só palavras, mas um jeito inteiro de ser. Uma voz que não apenas falava, alcançava, acolhia e permanecia.
A boa notícia para os fãs é que esse hiato pode estar prestes a acabar. A Rádio Fred Federicce iniciou tratativas para trazer o comunicador de volta à ativa, desta vez explorando o alcance do rádio web. O possível retorno promete resgatar o estilo único que faz tanta falta na programação atual, unindo a tradição sertaneja às novas tecnologias digitais.
*Sidenei Defendi é jornalista profissional, mestre de cerimônias, “content creator” e Titular da Cadeira nº 5 (Edgard Roquette-Pinto) da Academia Pedreirense de Letras. Este conteúdo é autoral e foi elaborado em 16 de abril de 2026, às 18h13 –
