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ORQUESTRA DE VIOLEIROS DE PEDREIRA: QUANDO A TRADIÇÃO VIRA POLÍTICA CULTURAL VIVA

Publicada em: 16/04/2026 14:56 -

A Viola que Virou Patrimônio

 

Uma imagem que permanece nítida, intensa, como se tivesse sido gravada em relevo na minha memória é do começo de março de 2002. Eu atuava na Rádio Boa Nova FM, das 7h30 às 10h, com o Programa PAPO VAI, PAPO VEM! O estúdio ainda era de frente para a porta lateral da Matriz de Sant’Ana, a poucos metros da calçada da Rua Siqueira Campos, sentido Bairro-Centro, quando, pedindo licença, adentrou ao “set de locução” Claudinho Cassiani, então diretor de Cultura do Município.

 

Tinha como missão convidar os violeiros da Cidade para integrarem o grupo que participaria da 1ª Missa Caipira de Pedreira, que era um desejo do Monsenhor Nilo Romano Corsi. Mal sabia que o futuro grupo se tornaria uma das referências culturais da Cidade.

 

Em 9 de abril de 2002, o solo de Pedreira viu brotar uma de suas mais profundas heranças culturais. Enquanto o mundo acompanhava o funeral da Rainha Elizabeth, a Rainha-Mãe, no Reino Unido, que havia falecido em 30 de março, aos 101 anos; nascia como sonho de Cláudio Luiz Cassiani, a Orquestra de Violeiros de Pedreira. Dias antes, o grupo soltara a voz e os acordes da viola caipira, na Matriz de Sant’Ana, durante a belíssima Missa Sertaneja idealizada e celebrada pelo Monsenhor Nilo Romano Corsi.

 

A música raiz ganhou vida pelas mãos de violeiros locais, sob a regência cuidadosa de Claudinho Cassiani, com a importante ajuda do Maestro Fraga. O que era uma aspiração tornou-se realidade: uma tradição que hoje ressoa com orgulho por toda a Região, pelos quatro cantos do país e ainda pelo exterior. E isso ocorreu há 24 anos. Neste dia 9 de abril, a Instituição festeja o Jubileu de Opala, simbolizando um amadurecimento precioso e multifacetado, tal qual a pedra que lhe dá nome, refletindo cores e nuances diversas. Representa resistência, experiências acumuladas, alegrias e desafios superados, a celebração de uma convivência viva e de uma ação conjunta, construída ao longo de mais de duas décadas.

o reconhecimento como Ponto Cultural, oferecendo aulas gratuitas de música a inúmeros interessados, democratizando o acesso, rompendo barreiras sociais e transformando talento em oportunidade.

 

E há ainda um valor que não se mede em números: a presença. A Orquestra jamais se ausentou dos lugares onde a cultura é mais necessária. Esteve em vários momentos no Asilo, levando dignidade em forma de som. Marcou presença em festas beneficentes, com ou sem arrecadação, porque entende que cultura também é serviço. Compareceu onde foi chamada e, muitas vezes, onde sequer foi lembrada, mas fez questão de estar. Além da música, preservou e difundiu manifestações tradicionais como a Dança e Reza de São Gonçalo, iniciada pelo saudoso João do Gás, mantendo viva uma expressão cultural que atravessa gerações e resiste ao esquecimento. 

 

O que se vê, portanto, não é apenas uma Orquestra. É um ecossistema cultural completo. Um organismo vivo que ensina, preserva, emociona e representa.

 

Num tempo em que tanto se discute o valor da cultura, a Orquestra de Violeiros de Pedreira não teoriza: ela pratica. Não reivindica identidade: ela a constrói diariamente. Não espera reconhecimento: ela o justifica.

 

Premiá-la, reconhecendo seu regente e seus integrantes, não é apenas um gesto de valorização. É um ato de justiça. 

 

*Sidenei Defendi é jornalista profissional, mestre de cerimônias, “content creator” e Titular da Cadeira nº 5 (Edgard Roquette-Pinto) da Academia Pedreirense de Letras. Este conteúdo é autoral e foi elaborado em 8 de abril de 2026, às 18h12.

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